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Homem-Aranha | A trajetória de Peter Parker nos cinemas

Relembre trajetória do Aranha nos cinemas, suas falhas, acertos e cenas que se eternizaram

Geraldo Campos 13 de dez. de 2021Atualizado em 13 de dez. de 2021

O Homem-Aranha é um dos, quiça, maior fenômeno da Marvel de todos os tempos. Criado por Stan Lee nos anos 60, o personagem carrega uma legião de fãs e histórias que ecoam dentro e fora da cultura geek; seja nas HQs ou nos cinemas. Por isso a Misto preparou com todo cuidado e carinho com Peter Parker, um copilado de sua trajetória no universo dos sétima arte.

Homem-Aranha: O Filme (1977)

Ao contrário do que muitos podem imaginar, o primeiro que interpretou o aracnídeo não foi Tobey Maguire, e sim Nicholas Hammond em 1977. O longa teve uma exibição restrita nos cinemas, e serviu de backdoor pilot para a série de televisão que só viria a durar treze episódios.

O filme apresenta Peter Parker como fotógrafo freelancer que passa por tropeços financeiros bem como nas HQs, até que, um dia, ele é picado por uma aranha radioativa dentro de laboratório, ganhando poderes especiais. Tudo segue parecido com a HQ. Obviamente que hoje o filme está extremamente datado e as lutas soam engraçadas acompanhada de um roteiro que não se compromete com muita coisa. Na verdade, mesmo para a época, o roteiro era simplista e as coreografias de lutas bem pobres; era o universo dos heróis ainda em fase de gestação para os longas-metragens.

Vale lembrar que o Homem-Aranha foi o segundo personagem que ganhou um live-action depois de Capitão América, que teve sua primeira adaptação lá em 1944.

Nicholas Hammond ainda voltaria a interpretar o aranha para longas-metragens mais duas vezes. Uma em 1978 em Spider-Man Strikes Back, e por fim em 1981 em Spider-Man: The Dragon’s Challenge. Todos os três filmes estão disponíveis pelo Youtube.

Uma Pausa Para... Licenciar Nossos Personagens

Antes de partimos para os longas dirigidos por Sam Raimi, vamos entender o que aconteceu para que o Aranha não fizesse parte da Disney logo que a Marvel Studios começou a construir seu universo de heróis nos cinemas.

Na década de 1990 a Marvel Comics enfrentava uma grave crise financeira. Suas maiores vendas estavam relacionados aos X-Men e o próprio aranha, mas que mesmo essas haviam sofrido uma séria queda de vendas nas bancas. Revendedores chegaram a dizer que houve uma queda de 70% das vendas.

Com a empresa precisando de receita mais urgente que nunca para se reestabelecer no mercado, ela decidiu licenciar suas propriedades intelectuais para outras mídias e empresas competentes. Blade e os X-Men foram para a Fox, Hulk para a Universal e o Homem-Aranha para à Sony, que na época já havia adquirido a Columbia Pictures. O acordo previa o direito da Sony produzir filmes e séries, com todo lucro para si. Bonecos e produtos derivados deveriam ser divididos 50% os lucros entre ambas.

Por isso o Aranha demorou tanto para entrar no MCU, o que só aconteceu graças a um acordo entre Disney e Sony, bem como o próprio Venom.

Agora sim, podemos voltar ao assunto...

Homem-Aranha (2002)

De 1981, passando por séries animadas e a crise dos anos 90, a Sony lança seu primeiro filme do Homem-Aranha que iria marcar toda uma geração.

Estrelado por Tobey Maguire e dirigido por Sam Raimi, o longa foi um sucesso de bilheteria e arrecadou 821,7 milhões de dólares. Números que refletem a qualidade do filme e o carisma dos personagens.

Maguire encanta tanto como Peter quanto como Homem-Aranha, tendo um alicerce de personagens coadjuvantes sólido como Mary Jane (Kirsten Dust), Tia May (Rosemary Harris), Willem Dafoe interpretando o que logo de cara foi um acerto de vilão, o Duende Verde, e o eterno J. Jonah Jameson de J. K. Simmons.

O longa desenvolve muito bem os dilemas daquele garoto de ensino médio (embora a aparência dos atores não coincidam com estudantes do terceiro ano), uma crush inalcançável em sua sala, um melhor amigo quem pode confiar, problemas financeiros, mas que guarda em casa uma família super caridosa. Além de tudo, Peter é um grandessíssimo nerd (embora isso venha ser mais explorado no segundo longa).

Nessa adaptação, Peter é picado por uma aranha geneticamente modificada, não radioativa, e diferente das HQs, ele solta teia do pulso literalmente. São teias orgânicas, e não existem os famosos lançadores.

O filme é muito assertivo em desenvolver todos os nuances de Peter como herói, levando a sério sua máxima de "com grandes poderes, vem grandes responsabilidades". É um filme de herói, que não tem medo de se assumir como tal, e entrega uma importante e poderosa mensagem do começo ao fim.

Vale constar algumas curiosidades sobre o filme: antes de seu lançamento foi banido um trailer devido à tragédia do 11 de setembro, ao qual mostrava o Aranha prendendo o helicóptero de criminosos entre as duas Torres Gêmeas. Confira:

Homem-Aranha 2 (2004)

O segundo filme de Sam Raimi é dito por muitos fãs como o melhor da trilogia e até mesmo como o melhor do personagem. Sem dúvidas é um longa muito mais maduro que o primeiro e desenvolve muito profundamente Peter Parker em todos os sentidos; seja como herói, sua relação com Mary Jane e Tia May, além de seus dilemas e conflitos internos.

Não só o roteiro é mais maduro como também os aspectos técnicos. As cenas de ação são todas ótimas do começo ao fim, com cenários e momentos marcantes que ficam eternizadas na memória de qualquer um. Exemplo prático disso é toda a sequência do trem, que proporciona lutas incríveis e expõem todo o heroísmo de Peter.

Mais difícil que fazer boas cenas de ação, é criar uma atmosfera e sentimento que façam do herói um símbolo, de forma que isso se justifique nas decisões do personagem e não somente no discurso teórico.

"Com grandes poderes, vem grandes responsabilidades", logo, Homem-Aranha precisa agir dessa forma, de maneira que faça jus aos seus princípios. Raimi planeja isso de forma magistral, e Maguire dá vida ao símbolo e ao discurso brilhantemente. Esse é o maior mérito de Homem-Aranha 2.

Não sendo o bastante, Alfred Molina também interpreta lindamente o vilão Dr. Octopus, consilidando-se como um dos melhores antagonistas da trilogia e muito provavelmente de todos os filmes do aranha até agora.

Homem-Aranha se aproxima muito do que mais funcionava nas HQs, que era sua relação com Mary Jane. O final cria todas as melhores expectativas possíveis de uma continuação de um herói já estabelecido, de vida "simples" e com MJ ao seu lado.

Homem-Aranha 3 (2007)

Apesar das expectativas criadas pelo final de Homem-Aranha 2, o terceiro e último filme foge do que havia sido entregue até então.

Polêmico desde sua concepção, em que Sam Raimi e os produtores não estavam em sintonia sobre o que queriam para o personagem, o resultado foi um filme desconjuntado, com ideias boas, mas poluído pelo exceção de vilões com uma dramaticidade frágil e a repetição enjoativa de remontar sempre à morte de Tio Ben e fazer da Mary Jane a donzela que precisa ser salva.

A relação entre Peter e Mary Jane é frustrante, e Gwen Stacy está muito mal caracterizada. Existe uma ideia de trabalhar o egoísmo do Homem-Aranha, que é legal e se traduz na imagem do Venom, mas é mal executada. A própria imagem do aranha fica desgastada, e suas ações não fazem muito sentido tendo em vista o que já havia sido estabelecido nos dois filmes anteriores.

Outra personagem que perde muita força é a Tia May. Que flutua em pontos específicos para tentar mudar a concepção de mundo que Peter vai alimentando em certos momentos. E basicamente ela fica resumida à isso. De outro lado, as cenas de lutas são ótimas e toda estética do filme é bacana, mas que não vence os pontos falhos.

O longa não chega a manchar o que vinha sendo construído por Sam Raimi, mas o quarto filme não chega acontecer. Mesmo com isso, essa foi a maior bilheteria entre o três, e alcançou a marca de 894,9 milhões de dólares.

O Espetacular Homem-Aranha (2012)

Depois de 2007, Homem-Aranha entrou num hiato dos cinemas por cinco anos até 2012. Com elenco renovado, e com a intenção de recontar a história de Parker, o novo longa teve direção de Mark Webb e estrelou Andrew Garfield como Peter e Emma Stone como Gwen Stacy.

Muita coisa foi mudada em relação ao que foi feito entre 2002 e 2007. Peter agora é um rapaz mais descolado, que anda de skate, mas sem perder seu lado nerd. Lado nerd esse que se traduz em seus lançadores de teias, que agora não são mais orgânicas como as de Maguire, e em sua desenvoltura em resolver cálculos complexos.

Esse jeito mais descolado de Peter desagradou muitos fãs, que acabaram por não se identificar com o personagem. Não só isso, mas existe toda uma aura de pré-destinamento em relação ao personagem que não lhe cai muito bem. Entretanto, Andrew consegue manter a essência do herói principalmente quando ele está em cenas de ação ou interagindo com civis e crianças.

Sua origem é desenvolvida à sombra do passado misterioso de seus pais. Tia May e Tio Ben também são pilares de seu desenvolvimento, mas sua mãe e sobretudo seu pai, ficam ecoando enquanto Peter procura entender quem ele está se tornando.

Seu par romântico agora é Gwen Stacy, arco inclusive muito bem construído e que traz um ar de juventude mais evidente e crível que do filme de 2002. A dinâmica de ambos soa apaixonada e divertida, e as diferenças ideológicas do pai de Stacy com Parker são bem interessantes de acompanhar.

Peter está bem no começo de carreira e tem dificuldades de se balançar nas teias pela cidade. Em aspectos sutis como esse o filme presa em se fazer o mais coerente possível. Porém, as cenas de ação são pouco empolgantes e o visual do Lagarto soa genérico.

O Espetacular Homem-Aranha traz uma estética diferente. O uniforme é ótimo e muitas cenas se passam durante a noite. Aqui o personagem fica mais associado as luzes da cidade que o sol de final de tarde como na trilogia anterior.

É um filme de "ok" para bom, que se perde ao tentar fazer mudanças demais em relação as HQs, mas que na balança, apresenta uma química de casal promissor como o ponto mais forte.

O Espetacular Homem-Aranha 2: A Ameaça do Electro (2014)

Chegamos em 2014 e o Homem-Aranha de Andrew precisa de um filme certeiro para se consolidar de vez como o novo amigão da vizinhança. E, infelizmente, ele não consegue.

A interpretação de Andrew em si é ótima, principalmente quando em ação, o casal continua com um excelente desenvolvimento, mas o roteiro, os novos vilões e personagens, são muito fracos.

Interessante é que todo o primeiro ato é divertido, leve, descontraído e lembra muito uma HQ. Porém, conforme a narrativa avança, ela vai se enrolando em tentar o tempo todo surpreender o espectador com mais e mais revelações bombásticas.

O filme não agradou nem aos fãs e nem a crítica, e teve uma repercussão bem negativa. Apesar de ser esteticamente lindo e um final corajoso cheio potencial, tendo em vista a morte de Gwen, os pecados na narrativa não permitiram que o Espetacular Homem-Aranha se transformasse numa trilogia.

Mesmo em 2014, quando os filmes de heróis ganhavam mais e mais destaque, devido ao mal recebimento do longa, no total ele arrecadou 709 milhões de dólares em bilheteria. A menor de todas até então.

As ideias para um terceira parte eram interessantes. Traria o Sexteto Sinistro, exploraria o trauma da perda de Gwen Stacy e iriam reintroduzir Mary Jane aos cinemas.

Capitão América: Guerra Civil (2016)

Já com o MCU bem estabelecido, em 2016 chega para as telonas o terceiro filme do Capitão América. Esse que marcaria a cisma dos Vingadores e introduziria o Homem-Aranha à Marvel Studios, ganhando vida na interpretação de Tom Holland. Pouco se imaginava que poderia existir um acordo assim entre Sony e Disney, e realmente isso se deu em partes.

De qualquer maneira a Marvel utilizou de Tony Stark para trazer esse personagem, e, em cima disso, criou um visual que se distingue bastante do que havia sido feito até então. Misturando o retrô com tecnologia Stark, o novo Homem-Aranha provido de mais gadgets.

Esse Peter se assume bem mais "molecão", mais imaturo e até mesmo ingênuo, mesmo carregando consigo uma motivação nobre e intelecto avançado.

Independentemente de suas características, sua chegada ao MCU fez muito barulho, e vê-lo lutando contra todos aqueles personagem já bem estabelecidos foi uma grande coisa para os fãs. Estava quase garantido uma Marvel plena, que em 2018 se desenhou ainda mais pela compra da Fox pela Disney.

Homem-Aranha: De Volta Ao Lar (2017)

Homem-Aranha: De Volta Ao Lar era tudo que o público queria, Peter Parker no universo Marvel. O longa fez uma bilheteria de 880,2 milhões de dólares e foi bem aclamado tanto pelos fãs quanto pela crítica.

Porém, aquilo que foi tão bem recebido em 2017, acabou, com o tempo, caindo em questionamentos válidos, que no primeiro momento havia sido esquecido.

Todo desenvolvimento inicial mostrando o Peter no colégio, seu problemas de um garoto jovem na escola, suas paixões e sua precocidade na vida de herói, parece tudo muito interessante. Ele interagindo com os moradores do bairro, ajudando uma senhorinha, é tudo muito Homem-Aranha.

O filme começa a errar quando fica claro que naquele instante o maior dilema do Peter é provar seu valor para Tony Stark. Todo drama que envolve o herói é frágil, e a Tia May, ao invés de servir como referência moral para ajudar Peter em suas decisões, se torna gancho para piadas. Nesse ponto a formula Marvel atrapalha demais. Não é por que se trata de um herói jovem, que tudo precisa ser motivo para piadas.

Tio Ben é deixado de lado, para que o Homem de Ferro se torne o motor que motiva as ações do aranha, isento de uma moral mais polida. Homem de Ferro tem todos seus méritos como herói, mas o Homem Aranha é quem deve ser um símbolo mais bem definido de certo e errado, não o Stark. É quase como querer fazer do Superman o Batman e o Batman de Superman.

Visualmente o Peter está perfeito, suas habilidades estão fazendo jus às suas origens, mas suas virtudes nem tanto. Pouco se desenvolve de Parker efetivamente, para que as piadas e a superficialidade da narrativa avance.

De Volta Ao Lar também traz elementos do universo Ultimate dos quadrinhos, criado por Brian Michael Bendis. Quanto ao fato da Marvel saber brincar com os elementos das HQs, isso é inegável. Um exemplo é o próprio Abutre, que apesar de nunca ter recebido nenhum grande destaque nas HQs, se faz muito bem inserido na trama.

Todavia, isso não desfaz o fato de que tudo o que é colocado de Peter é, em suma, superficial e passa uma falsa sensação de heroísmo.

Os Vingadores Guerra Infinita e Ultimato (2018 - 2019)

Os dois últimos filmes dos Vingadores tem um peso catártico em todo MCU e isso não é diferente para o Aranha. Entre todos esses acontecimentos, Peter vive vitórias e uma grande perda, a de Tony Stark.

Há momentos marcantes como o momentos em que Tony perde Peter em seus braços, o reencontro de ambos na luta final contra Thanos, e depois, por fim, quando as posições se invertem e Peter perde seu "mentor".

Homem-Aranha: Longe De Casa (2019)

O primeiro filme do aracnídeo que cruzou a barreira do 1 bilhão de dólares nos cinemas. Não por acaso esses valores, foi o primeiro filme do MCU pós Ultimato, e todos ansiavam por saber como estaria esse universo depois de tudo que se passou.

Longe de Casa já não teve uma recepção tão positiva quanto o primeiro, mas os ganchos no final ainda faziam a cabeça dos fãs explodirem. De toda maneira o filme não ruim, mas erra persistentemente na construção de seu herói.

Se antes a preocupação de Peter era provar seu valor ao Homem de Ferro, agora ele se preocupa em assumir o vácuo que representa sua ausência. Ele procura se assumir como aquele que herda o legado de Tony, e não se assumir efetivamente o Homem-Aranha. Esse é o grande erro do filme. E para potencializar ainda mais essa questão do aranha em relação ao Stark, o vilão Mystério brinca com a psique de Peter, atomentando-o com a ideia de que ele jamais será um herói como o Homem de Ferro.

Assim como em seu antecessor, esse perde tempo com cenas inteiras que não passam de piadas, e que só estão ali para mostrar como esse Homem-Aranha é divertido e carismático.

A grande saca da Marvel é sempre a forma como ela faz a narrativa dar uma quebra de expectativa. O final com a identidade do aranha revelada, todas as deixas sobre multiverso, distraem a atenção do espectador para aquilo que é mais fundamental: um Homem-Aranha com virtudes morais bem definido, mas que mesmo assim vive e está todo instante colocando essas mesmas virtudes à prova. Isso se perdeu muito, e somente os dois primeiro longas de Raimi o fizeram com clareza.

Saldo e as Expectativas Para o Futuro

Cada Homem-Aranha possui seus pontos negativos e positivos nos cinemas. Uns mais bem desenvolvidos, com um roteiro que, assim como a interpretação dos atores, são maravilhosos. Outros com interpretações ótimas, mas com roteiro fraco, ou que mais se preocupa em contar piada e instigar a curiosidade dos fãs do que aprofundar em dilemas mais complexos.

Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa vem cantando uma poderosa transformação no MCU, e todas as teorias apontam para o retorno de Andrew Garfield e Tobey Maguire, bem como a dos vilões que já está mais que posta. Os cinemas vão lotar, talvez seja recorde de bilheteria mundial, mas que nossos tão queridos personagens possam apresentar aquilo que foi desenvolvido de melhor em cada um, e que tenham aprendido com suas falhas.