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Matrix | Do fenômeno de 1999 a um dos filmes mais esperados de 2021

Entenda a trajetória de Neo e o universo que cerca 'Matrix'

Geraldo Campos18 de set. de 2021Atualizado em 19 de set. de 2021

O ano é 1999, e o mundo da sétima arte está prestes a conhecer algo até então inédito, chamado "Matrix". De várias maneiras "Matrix" se torna um fenômeno da cultura pop, e revoluciona a formar de ver e fazer cinema; desde de seu roteiro filosófico para os olhos mais apurados, quanto nos efeitos visuais e técnicas de filmagem como a Bullet Time. Não é fácil falar de "Matrix", mas sem dúvidas é revelador e divertido, por isso a Misto vem preparar você para seu quarto filme (Matrix: Resurrections), destrinchando e mergulhando neste universo.

A filosofia por trás de "Matrix"

Antes de tudo vamos conceituar "Matrix" e entender suas inspirações. O roteiro do filme parte de um conceito filosófico popularizado no pensamento de René Descartes (1596-1650), que inaugura a filosofia moderna imortalizada pela frase "Penso, logo existo". Para Descartes seus sentidos poderiam ser falhos, logo ele passa a duvidar de toda a realidade que ele reconhece através de seus sentidos, como visão, tato, olfato, etc.

Com isso, Descartes chega a uma conclusão, ou melhor dizendo, uma verdade indubitável, a verdade de que ele duvida. Pode-se entender a frase dele então como 'pensar' sendo quase um sinônimo de 'duvidar'. "Matrix" traz essa percepção de mundo quando Thomas Anderson (Keanu Reeves), ainda sem ter conhecimento da Matrix, se pergunta se a realidade em que ele vive é realmente uma verdade. Na animação "Era Uma Vez Um Garoto", que conta a história de Popper (Clayton Watson), ele se faz a mesma pergunta.

É essa ânsia de dúvida sobre a realidade existente em Neo e Popper que o fazem "livres", e o no caso de Neo até o torna capaz de manipular a 'Matrix'. Trazendo para a filosofia mais uma vez, é como sair da Caverna de Platão, e se livrar das amarras da ignorância. Não entendendo isso como algo feliz ou gratificante, tanto que Cypher (Joe Pantoliano), escolhe fazer um acordo com as máquinas para voltar à "Matrix", ou seja, à "ignorância", em busca de sua felicidade.

Matrix/Warner/Divulgação

Durante o primeiro longa outra referência clara para os amantes de filosofia é quando Neo se encontra com a Oráculo (Gloria Foster), e ela mostra a famosa frase de Sócrates (470 a.e.c. - 399 a.e.c.), "conhece-te a ti mesmo", para Neo. Essa frase tem relação com o protagonista se identificar como o escolhido, conhecer a si e do que ele é capaz de fazer.

Outra inspiração óbvia para o filme, vindo da literatura, é "Alice No País das Maravilhas" (1865), que é pontuando em diversos momentos, principalmente quando Morpheus oferece as pílulas, como quando Neo aceita em ir à festa por causa da tatuagem de coelho, e lá conhece Trinity (Carrie-Anne Moss). No trailer de "Matrix 4" existem várias referências ao livro de Lewis Carroll (1832-1898).

Neo, como protagonista, nos dois primeiros atos do filme, apresenta muito daquilo que ficou conhecido como 'A Jornada do Herói', desenvolvido por Joseph Campbell (1904-1987). Desde a escolha do nome Neo, até suas vestimentas, apresentam muito do arquétipo do herói e uma figura que beira o messiânico. Seu nome significa "novo" e é anagrama pra "one", que no português pode ser traduzido como "o escolhido".

Ânimo à flor da pele

Uma questão interessantíssima que vale a pena analisar é lembrar o contexto em que 'Matrix' foi aos cinemas. Em 1999 o mundo estava prestes a fechar mais um milênio, e se falava em teorias da conspiração de fim do mundo ou, como ficou conhecido, 'O Bug do Milênio'.

Matrix/Warner/Divulgação

O bug do milênio era um medo real da população, pois se acreditava que depois de 1999 os computadores iriam passar para 1900, ou 19100, ou até mesmo que fossem zerar. E acreditem se quiserem, mas o mundo chegou a investir cerca de 300 bilhões de dólares em medidas preventivas. De fato em alguns locais do mundo houveram realmente panes em determinados sistemas e sites, mas nenhum avião chegou a cair por causa disso, como chegou a ser cogitado.

E é nesse contexto conspiratório e na crescente utilização de internet nos EUA com a banda larga que "Matrix" chega aos cinemas. O primeiro longa fez uma bilheteria de 465,3 milhões de dólares, grande marco para época, e seu sucessor, "Matrix: Reloaded" (2003), fez 739,4 milhões, mesmo não tendo caído tanto nas graças dos fãs. "Matrix: Revolution" (2003) ficou em 427,3 milhões.

Universo Matrix

As irmãs Lana e Lily Wachowski, diretoras de "Matrix", também se preocuparam em fazer bom uso de crossmedia para expandir seu universo e situar de forma mais eficiente todo o conceito da obra, no total são nove animações curta metragem ("Animatrix"), o jogo "Enter The Matrix" e os quatro filmes. As animações são todas muito boas e remontam melhor, inclusive, a ascensão das máquinas em "O Segundo Renascer - Parte I e II", que por vezes faz com que o espectador tenha uma certa "simpatia" com os antagonistas, e explica a raiva deles contra os humanos, e lembra muito o game "Detroit: Became Human" (2018).

Animatrix: O Segundo Renascer/ Warner/Divulgação

Outras duas animações muito relevantes são: "Era Uma Vez Um Garoto", que como dito conta a história de Popper e como ele se livrou da 'Matrix', e "O Voo Final de Osíris", que conta como a resistência descobriu os planos das máquinas para invadir a cidade de 'Zion'; plot que permeia os dois últimos longas já lançados.

Ordem Cronológica de "Matrix":

  • O Segundo Renascer - Parte I (Curta)
  • O Segundo Renascer - Parte II (Curta)
  • Uma História de Detetive (Curta)
  • Matrix (Longa)
  • Era Uma Vez Um Garoto (Curta)
  • O Voo Final de Osíris (Curta)
  • Matrix: Reloaded (Longa)
  • Matrix: Revolutions (Longa)
  • Além da Realidade (Curta)
  • O Record Mundial (Curta)
  • O Robô Sensível (Curta)
  • Um Coração de Soldado (Curta)
  • Matrix: Resurrection (Longa)

Contribuições ao Cinema

"Matrix" além de possuir todas essas camadas narrativas complexas, ainda presentei o mundo do cinema com atributos técnicos e estéticos que virariam referência. Uma delas é a Bullet Time, que apesar de usada mais de uma vez no longa, chocou positivamente o público na sequência em que Neo desvia de tiros:

A técnica consiste em dezenas de câmera que captam um mesmo objeto em diferentes ângulos, o tempo é ultra reduzido para que se aprecie os detalhes, movimentos e intensidade da cena, enquanto o ângulo vai mudando. Essa técnica não foi nenhuma invenção de "Matrix", mas foi quando ela foi efetivamente difundida. A novidade em si é que geralmente o objeto de gravação está parado, mas nesse caso ele está em movimento.

No quesito coreografia "Matrix" também chamou muita atenção. Na época Yung Woo-Ping foi o escalado para coreografar as lutas que simplesmente foram um sucesso. Não só as lutas foram um sucesso e também o figurino do elenco chamou muita atenção na época, e veio a influenciar futuramente "Anjos da Noite" e toda a franquia "X-Men" da Fox.

A paleta de cores, combinando azul e verde quase sempre dessaturado se distinguindo das ficções vigentes da época como "Star Wars" e "Blade Runner", e também veio a impactar futuramente em longas de grande sucesso como "A Guerra Dos Mundos" e "A Chegada".

De várias formas a criação das irmãs Wachowski influenciou e ainda influência não só o cinema, mas vários seguimentos artísticos, seja por sua parte técnica, ou provocando reflexões, teorias e debates sobre os conceitos aos quais "Matrix" se constrói.