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A representatividade no universo das HQs

Entenda como os grupos sociais conquistaram seu espaço nas HQs

Geraldo Campos23 de mar. de 2021Atualizado em 25 de mar. de 2021

Tanto a DC quanto a Marvel possuem uma infinidade de personagens, entre heróis, vilões e demais. Apesar disso, levou-se um tempo para o amadurecimento desses, e das editoras como um todo, não só para aprenderem a dialogar melhor com seu público, bem como representar nas HQs todos os grupos sociais. 

O Que é Representar?

O conceito de representatividade nas HQs é muito mais profundo do que simplesmente inserir um personagem negro ou LGBT+, e teve inicio muito antes do que se pensa. 

O primeiro super herói que abriu a Era de Ouro dos quadrinhos veio em 1938 no título da Action Comics #1 e apresentou para o público o Superman- o âmago de tudo que seria criado posteriormente. 

Action Comics #1 - a representatividade no universo das HQs

Logo no ano seguinte foi criado aquele que é hoje dito por muitos como o maior herói da DC (ou pelo menos o que rende mais dinheiro), o Batman. Que, apesar de estranho dizer, por si só é uma leve representatividade. Pense, Superman era/é uma figura messiânica, vindo de outro mundo, com poderes inimagináveis, capaz de erguer um carro, ser mais rápido que uma bala e mais forte que um trem. E o Batman, bom, era um cara qualquer vestido de morcego. Tudo bem que esse “cara qualquer” era um bilionário, distante da realidade da maioria das pessoas, mas ainda assim, era só um homem sem poderes.

Detetive Comics #27 - a representatividade no universo das hqs

Em 1941 é criada a heroína que hoje carrega consigo inúmeros fãs, dentre eles homens e mulheres, a Mulher Maravilha. Mesmo que logo em sua criação tenham existido traços de uma sociedade conservadora em suas revistas, tínhamos pela primeira vez uma mulher protagonista nas HQs. E isso na década de 40. Claro que ainda não era suficiente, ela era a única figura feminina na Liga da Justiça, mas ela era imponente e extremamente poderosa. 

All Stars Comics #8 - A representatividade no universo das HQs

Assim está criada a trindade da DC Comics, Batman, Mulher Maravilha e Superman- o ponta pé para a representatividade. 

A Guerra

Na década de quarenta os EUA estavam na segunda guerra mundial lutando contra as tropas Nazistas e Fascistas, e adivinha quem é criado e aparece na capa de uma revista dando um soco na cara do Hitler, ele mesmo, o Capitão América.

Capitan America #1 - a representatividade no universo das HQs

Isso é extremamente dialogador com leitor, o patriotismo tomava conta dos EUA, e quem em sã consciência, não gostaria de dar um soco no Hitler? Não só representava a luta dos soldados em campo, bem como a vontade de uma nação inteira. 

O Leitor Nas Revistas

A grande representatividade, realmente sentida pelo leitor, veio em 1962 com a criação do amigão da vizinhança, o cabeça de teia, o incrível e espetacular, o Homem-Aranha. Ele mesmo, mas como? 

Amazing fantasy - a representatividade no universo das HQs

Peter Parker era um garoto fazendo ensino médio, apaixonado pela garota mais linda do colégio, nerd, amante de HQs e totalmente sem grana para pagar suas contas. Pode parecer bobeira, mas não é, a identificação do leitor com o personagem é direta. Ele não era um milionário, semi-deus ou uma entidade suprema, ele era o amigão da vizinhança, e isso teve muito peso na época de seu lançamento; o retrato exato de quem mais lia quadrinhos.

Nessa época a Marvel já apostava em conflitos internos do próprio Eu de seus heróis, e isso se fortalece principalmente em 1973, com a morte da amada do Peter, Gwen Stacy. Loucura personagens de quadrinhos morrerem naquela época até então, mas nesse ponto começa uma forma diferente de se explorar o introspectivo dos personagens, problemas e crises que todo ser humano está sujeito a ter.

Vale lembrar que o Comic Code Authority já corria solto por aí, seria praticamente impossível qualquer representatividade do grupo LGBT+. A bem da verdade é que essa sigla nem conhecida na época era, e o tema era tratado como doença ou distúrbio. 

O Pantera

Logo depois da criação do Aranha, em 1966, é criado também o primeiro herói negro das HQs, O Pantera Negra. Sua primeira aparição foi em Quarteto Fantástico #52. Interessante observar que na história T’Challa, O Pantera, convida o Quarteto para conhecer seu reinado localizado na África Oriental chamada Wakanda.

Fantastic Four - a representatividade no universo das hqs

Wakanda era tecnologicamente falando, super avançada, de fazer inveja nos EUA e União Soviética que buscavam naquele contexto dos anos 60 uma supremacia tecnológica, ideológica e bélica na Guerra Fria. Contudo, Wakanda preserva seus rituais ancestrais, conciliando sua cultura e desenvolvimento tecnológico. 

Na década de 70 a revista Jungle Action abriu mais as portas para a representatividade negra nas HQs, personagens como Luke Cage, Tempestade, Blade e o próprio Pantera, receberam muito destaque nessas revistas.

Lanterna Verde & Arqueiro Verde

Voltemos a DC. A história clássica ‘Lanterna Verde e Arqueiro Verde’ de Dennis O’Neil e Neal Adams chegou na década de 70 sem medo de mostrar por meio das HQs e de seus próprios heróis, as verdades que ninguém queria aceitar numa sociedade. Leia as duas imagens abaixo: 

Lanterna Verde e Arqueiro verde - a representatividade no universo das hqs

O vício de Ricardito foi um baque, ninguém esperava que um herói pudesse ter vícios, muito menos em heroína. O Homem de Ferro também foi explorado posteriormente por seu vício alcoólico.

Lanterna verde e arqueiro verde - a representatividade no universo das hqs

Esse é um dos contextos mais fortes das HQs. Essa busca pela america ideal, em que um senhor de cabelos brancos, discriminado por sua cor, aponta o dedo para o maior policial intergaláctico, Hal Jordan. As HQs estavam mudando, e muito.

Os X-Men já faziam uma metáfora a essa discriminação das minorias, seu pano de fundo é motorizado por discriminação aos meta-humanos. Mas o cerne do problema bateu em ‘Lanterna Verde e Arqueiro Verde’.

O Jogo virou

Dentre os anos de 1980 e 1990 muitas águas rolaram. As HQs conseguiram sua independência, Maus foi a primeira HQ a venceu o Politzer, caiu o Comic Code Authority, a Vertigo foi criada, Watchman, Sandman, Hellblazer e Monstro do Pantano fizeram seu barulho (e ainda fazem) e por fim, o Superman tomou uma bela surra, ‘morreu’ e estourou de vendas nos EUA. Mas o que isso significa? 

Significa que os escritores, mesmo com as burocracias editoriais, estavam mais livres do que nunca, inclusive para ter espaço e trabalhar com a questão dos LGBT+, por exemplo. Batwoman se revelou lésbica, Arlequina e Hera Venenosa protagonizaram um beijo gay, Homem de Gelo se revelou gay, em Authority, Apolo e Meia-Noite conduziam um relacionamento homosexual tratado com muita naturalidade na HQ, Miss América foi criada e assim por diante. 

Claro que essas conquistas não são obtidas de uma hora para outra, mas a DC já tinha tratado de questões muito mais arriscadas antes. Em Monstro Do Pântano de Alan Moore, o ‘monstro’ e Abby tem relações sexuais, mas espera… o monstro não é uma ‘planta’? Exatamente. Enquanto temas como homossexualidade estavam sendo tratadas nas HQs, algumas barreiras já tinham sido chutadas para muito longe, e até extrapolaram a razão por debaixo do nariz de todo mundo.

Monstro do Pantano - a representatividade no universo das HQs

Saber disso não é sinônimo de relaxamento quanto a representatividade. O primeiro filme de super-heroína só chegou aos cinemas em 2017 com Mulher Maravilha, e de um herói negro no MCU em 2018, com Pantera Negra. Demorou, e muito, mas as cartas estão postas na mesa, e Eternos promete trazer o primeiro herói declaradamente gay para as telonas. Um passo de cada vez, a tendência é expandir as possibilidades de sexualidade, etnias e até ideológicas no âmbito mainstream